Perto do coração selvagem
Olga Borelli

     Consagrado em sucessivas edições, Perto do coração selvagem – o romance de estreia de Clarice Lispector – continua a atrair novas gerações de leitores.
Nele, a pessoa e a escritora Clarice se confundem numa personalidade evanescente, cujos elementos vão tomando forma na medida em que nos deixamos penetrar por sua atmosfera mágica.

     É a sua complexidade interior escapando ao autoconhecimento, discernível apenas através do que escreveu e, paradoxalmente, do que não escreveu, mas simplesmente insinuou nas entrelinhas.

     Em Perto do coração selvagem, prematuramente começa a longa trajetória introspectiva rumo ao texto confessional, a uma “autobio­grafia não planejada”, que é impossível não ser vislumbrada ao longo da narrativa, com um enfoque irreversível do “eu”, personagem central dos textos de Clarice. É a autora que se funde aos personagens, o personagem que se sobrepõe ao autor.

     Começa a arder, em Perto do coração selvagem, o longo pavio que fará detonar a bomba:

“Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de Mim mesma em certos momentos brancos, porque basta‑me cumprir e então nada Impedirá meu caminho até a morte‑sem‑medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo...”



Diretora de produção teatral e autora do livro Clarice Lispector: esboço para um possível retrato.

  

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