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Consagrado em sucessivas edições, Perto do coração selvagem – o romance
de estreia de Clarice Lispector – continua a atrair novas gerações de leitores.
Nele, a pessoa e a escritora Clarice se confundem numa personalidade evanescente,
cujos elementos vão tomando forma na medida em que nos deixamos penetrar por sua
atmosfera mágica.
É a sua complexidade interior escapando ao autoconhecimento, discernível apenas
através do que escreveu e, paradoxalmente, do que não escreveu, mas simplesmente
insinuou nas entrelinhas.
Em Perto do coração selvagem, prematuramente começa a longa trajetória
introspectiva rumo ao texto confessional, a uma “autobiografia não planejada”,
que é impossível não ser vislumbrada ao longo da narrativa, com um enfoque irreversível
do “eu”, personagem central dos textos de Clarice. É a autora que se funde aos personagens,
o personagem que se sobrepõe ao autor.
Começa a arder, em Perto do coração selvagem, o longo pavio que fará detonar
a bomba:
“Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de Mim mesma em
certos momentos brancos, porque basta‑me cumprir e então nada Impedirá meu caminho
até a morte‑sem‑medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como
um cavalo novo...”
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