|
Tenho pouco a dizer para uma platéia exigente. Mas vou dizer uma coisa: para
mim, o que quer que exista, existe por algum tipo de mágica. Além
disso, os fenômenos naturais são mais mágicos do que os sobrenaturais.
Dois meses atrás aconteceu uma coisa comigo que chego a estremecer, só
de pensar. Eu estava angustiada, sozinha, sem perspectiva nenhuma, vocês sabem
como é. Quando de repente, sem nenhum aviso, uma chuvarada, seguida por uma
ventania, começou a cair. Essa chuva súbita me liberou, liberou toda
a minha energia, trouxe calma e me deixou tão relaxada que logo depois dormi
profundamente, aliviada. A chuva e eu, nós duas tivemos um relacionamento
mágico. No dia seguinte li no jornal, para surpresa minha, que a chuva que
tinha me afetado como magia branca, afetara outras pessoas como magia negra. As
reportagens diziam que tinha sido uma chuva muito forte, com granizo em alguns lugares,
que tinha destelhado muitas casas, que quase provocara a queda de um avião.
Também considero mágico o sol inexplicável que aquece todo
o meu corpo. Mágico também é o fato de termos inventado Deus
e que, por milagre, Ele existe. Eu mesma, pelo menos conscientemente, jamais lidei
diretamente com mágica. No entanto, pintei um quadro, e uma amiga me aconselhou
a não olhar para ele, pois poderia me fazer mal. Concordei. No quadro, que
chamei de “Terror”, arranquei de mim, talvez através da magia,
todo o horror que um ser sente no mundo. A tela era pintada de preto, quase no centro
havia uma terrível mancha amarelo escuro, e dentro dessa mancha algo vermelho,
preto e amarelo vivo. Parecia uma mariposa sem dentes querendo gritar, sem conseguir.
Perto da massa amarela, por cima do preto, pintei dois pontos completamente brancos
que talvez fossem a promessa do alívio futuro. Olhar para esse quadro me
faz mal.
Não acredito em nada. Ao mesmo tempo acredito em tudo. No dia primeiro de
janeiro de 1974 estava parada nos degraus de uma escada perto da casa de um amigo,
à espera dele. Fazia muito calor e tudo parecia deserto. Era um feriado e
de repente fiquei completamente desesperada, sem perspectiva nenhuma. Cobri o rosto
com as mãos e pensei: Por favor, meu Deus, mande-me pelo menos algum símbolo
de paz. Então abri os olhos e um minuto depois vi dois pombos perto de mim.
Fiquei surpresa e um pouco assustada. Logo depois fomos ao cinema, meu amigo e eu.
Perto do cinema havia uma loja fechada, porque era feriado, e vi através
da vitrine uma espécie de pote com quatro pombos dentro. No dia seguinte
fui até aquela loja e comprei o enfeite de porcelana. No outro dia uma pequena
pena de pombo caiu em cima de mim. Eu a perdi. E o episódio com o pássaro
aconteceu de forma dramática. Era mais uma vez um dia muito quente e eu estava
completamente exausta. Voltava do centro da cidade num táxi. Usava óculos
escuros. E tão cansada que apoiei a cabeça no braço, tentando
descansar um pouco. Então senti alguma coisa me incomodando, entre a lente
dos óculos e o meu olho esquerdo. Tirei os óculos e achei uma pena
de pombo. Sem comentários. Dois dias depois fui consultar um médico
amigo meu e novamente peguei um táxi. O motorista freou de repente. Perguntei
para ele, o que houve? Ele respondeu, quase matei um pombo, mas graças a
Deus, ele escapou. Cheguei ao consultório do meu amigo e contei para ele
aquela história dos pombos desde o início. E perguntei, qual o significado
dessas coisas estranhas? Ele respondeu sorrindo, coisas boas não precisam
de explicação. E disse mais, quer que eu lhe dê uma pena de
pombo? Eu disse, claro que sim, se tiver uma. Ele se abaixou, pegou uma pena no
chão e me deu. Ainda sem comentários.
Um dia aconteceu outra coisa com um amigo meu. Ele tinha um lindo curió,
pássaro raro de se encontrar no Rio, especialmente em Copacabana. Uma manhã,
quando foi alimentá-lo, viu com tristeza que o curió tinha morrido.
Não havia nada que pudesse fazer além de lamentar a morte do passarinho.
Uma hora depois a empregada gritou, vem cá depressa, vem ver uma coisa. Todos
foram para os fundos da casa e viram, tremendo um pouco, no chão, um curió.
O passarinho não tentou escapar e foi posto na gaiola. Comeu e começou
a cantar. Eu pergunto, por quê? Para quê? Também não existe
resposta para o fato de haver, numa pequena semente, numa simples semente de árvore,
essa promessa de vida, o fenômeno de uma semente que contém vida é
totalmente impossível. Um escritor brasileiro disse que estar vivo é
impossível, e eu acrescento que nascer é impossível.
E para terminar, direi uma coisa que pode parecer absurda, porque o que vou dizer
é alta matemática, mágica pura. A mágica em relação
ao que se escreve chama atenção para a palavra “inspiração”.
Como explicar a inspiração? Às vezes, no meio da noite, dormindo
um sono profundo, eu acordo de repente, anoto uma frase cheia de palavras novas,
depois volto a dormir como se nada tivesse acontecido. Escrever, e falo de escrever
de verdade, é completamente mágico. As palavras vêm de lugares
tão distantes dentro de mim que parecem ter sido pensadas por desconhecidos,
e não por mim mesma. Os críticos consideram que escrevo o que chamam
de “realismo mágico”. E um crítico, não me lembro
de qual país da América Latina, escreveu sobre mim: ela não
é escritora, é uma bruxa.
E agora quero ouvir o que vocês sabem sobre bruxaria.
|