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A obra de Clarice para crianças
   Laura Sandroni

              Uma das maiores escritoras brasileiras contemporâneas, Clarice Lispector criou quatro histórias dedicadas ao público infantil; O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura e Quase de verdade.
              Em todas elas os personagens principais são animais de variadas espécies, e o tema, suas relações com os seres humanos – principalmente com ela, Clarice, que tinha por eles um carinho extraordinário. Em nenhum momento ela pretendeu ensinar algo sobre a vida animal ou pregar a respeito da importância de cada um deles na grande cadeia ecológica do universo. Em cada linha o que transparece é seu enorme respeito pela natureza e o prazer que sentia ao se relacionar com todos os seres vivos. 
              Em O mistério do coelho pensante, seu primeiro titulo, lançado em 1967, ela confessa que escreveu a pedido de seus filhos, que adoravam “conversar sobre coelhos muito bom”. A intenção da autora em sua divertida narrativa é despertar na criança o gosto pela reflexão sobre os mistérios da vida. Na introdução, ela explica que a história só termina realmente “quando a criança descobre outros mistérios”. Uma narrativa simples, em linguagem coloquial, cheia de recados, própria de uma autora pensante e misteriosa.
              Em A mulher que matou os peixes (1969), não há propriamente um enredo. A narrativa se constrói sobre momentos da vida da escritora, sempre relacionados aos bichos que possui, aí incluídos aqueles que simplesmente passaram por sua casa – como ratos e baratas. A forma adotada é a da confissão. Logo de início a narradora/autora diz: “Essa mulher que matou os peixes, infelizmente, sou eu. Mas juro que foi sem querer.” A intimidade entre a escritora e o leitor se cria a partir daí e aumenta ao longo do texto, pois Clarice sabe, como poucos, dialogar com seu público, a exemplo de Machado de Assis.
              A vida íntima de Laura (1974) trata de uma galinha, que “apesar de bastante burra”, tem seus “pensamentozinhos e sentimentozinhos”.  Neste livro Clarice adota o tom coloquial de quem conta uma história para alguém muito especial e obtém com isso raro grau de intimidade que faz a delícia do ouvinte leitor. Ela põe em jogo toda sua arte de contadora de histórias e convoca o ouvinte a participar: “Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que acerte! Dê três palpites. Viu como é difícil?”
              Surpresa gostosa este Quase de verdade (1978)no qual o cachorro Ulisses é o narrador e Clarice a ouvinte. Nele, a autora reencontra sua infância e faz de um enredo simples um jogo em que texto e contexto se misturam na mesma alegria lúdica de comunicar-se com a sensibilidade mágica da criança.
Clarice Lispector ainda publicou uma versão de doze lendas brasileiras, a que intitulou Como nasceram as estrelas (1987) e relacionou cada uma aos meses do ano. Seu estilo coloquial de narrativa aproxima a poesia do olhar indígena, da criança de hoje.



Laura Sandroni é mestre em literatura brasileira com especialização em literatura infantil, fundadora e membro da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

  

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