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Quando, em 1944, uma jovem desconhecida, de 17 anos, levou à nossa editora
Agir, pouco antes fundada, seu romance inédito, que as grandes editoras se
recusavam a publicar, pedi-lhe para lê-lo. Lido, não hesitei. Tinha
em meus ouvidos, pela voz interior do livro, e em meus olhos, pela leitura, uma
presença diferente. Não apenas uma presença feminina, mas uma
expressão humana inteiramente nova, entre os nossos melhores escritores.
Era o modernismo remodernizado. Uma nova fase da Revolução de 1922,
que dois anos mais tarde, em 1946, Guimarães Rosa ia genialmente confirmar.
Era um risco editorial publicar um romance feminino, aparentemente esotérico,
como iriam ser mais tarde os de Nélida Piñon, de uma jovem ucrano-brasílica,
totalmente desconhecida. Corremos, porém, o risco calculado. O resultado
confirmou nossa previsão. Foi um completo fracasso editorial esse Perto do
coração selvagem, de Clarice Lispector.
Trinta e três anos se passaram. Nesse chuvoso e melancólico dezembro
de 77, a menina dos 17 anos, depois de uma ascensão penosa, cada vez mais
gloriosa, partiu para sempre, antecipadamente cercada por uma auréola, que
superou toda efêmera glória literária. Pois conseguiu juntar
a mais cristalina pureza estética, de uma longa obra de poesia em prosa,
a uma vida tragicamente marcada por um sentido transcendental dos mais amargos sofrimentos.
Marcada pela solidão. Marcada pela perda do grande amor de sua vida. Marcada
pela luta constante contra a quase miséria material. Marcadas pelas mãos
maceradas pelo fogo em defesa da vida de um filho. E pela sombra da insanidade rondando
a vida do outro. Como se conjugaram em torno dessa cabeça genial, cujos erres
ucranianos ainda ressoam aos meus ouvidos, todo um bando de pássaros negros.
Contra essa conjuração do destino, aparentemente, irremediável
só havia uma defesa, a confissão literária, no mais puro sentido
da palavra. A expressão totalmente oposta ao sentido pejorativo daquele estranho
desabafo verlaineano, tout le reste est littérature. Se houve jamais
em nossas letras um protesto formal contra esse conceito residual de literatura
e uma afirmação de que toda arte verdadeira, longe de ser o que sobra
é o que fica da realidade, esse documento poderá ser a obra
de Clarice Lispector. Como foi a de Cruz e Souza. Os malditos da sorte, quando nascidos
com a pinta do gênio, é pelo poder de sua criação estética
que sobrevivem a todas as ondas da desmemoria.
Clarice foi, evidentemente, uma escritora para os happy few, mas será
provavelmente, como veio sendo ao longo de seus sucessivos contos e romances (de
um subconsciente superlativamente dotado de uma revelação gradativa
dos entretons mais sutis do nosso pensamento e de nossas imagens), até mesmo
para a happyless croud. Pois é nessa rara composição
de extremos, que sua obra definidamente singular se aproxima paradoxalmente desse
outro gênio que, dois anos depois de sua estréia, iria marcar também
uma fase nova de nossas letras modernas. Refiro-me à fraternidade estética
entre esses dois grandes solitários e renovadores estilísticos, Guimarães
Rosa e Clarice Lispector. Entre outros aspectos de seus estilos, aparentemente esotéricos,
possuem em comum esse conjunto paradoxal de um elitismo particularista de expressão
e de temáticas opostas, inserido em uma matéria essencialmente universal
e mística. Guimarães Rosa como voz telúrica do Brasil
sertanejo e vegetativo, expresso pelo mais requintado dos manejadores de uma linguagem
recriada em língua, segundo a distinção de Sausurre,
tão bem formulada e aplicada em um admirável artigo de Gerardo Mello
Mourão. Clarice Lispector por sua vez, ao lado e em face de Guimarães
Rosa nessa década renovadora de 40, como voz oceânica do Brasil
praieiro, voltado para “o mundo, vasto mundo”, inclusive o eslavo, expressa
nos dois teclados coexistentes do subconsciente e do supraconsciente. Tanto uma
obra como outra profundamente unidas pelo laço desse subconsciente,
que liga todos os homens de todas as nacionalidades, de todas as religiões,
de todas as raças (antes do pensamento lógico e muito antes do pensamento
gráfico), assim como por esse supraconsciente da presença
invisível de Deus, que não se expressa pela invocação
de seu
Nome, mas naquilo que é o sinal mais seguro de sua realidade transcendente
e imanente, o silêncio.
Toda a obra de Clarice Lispector é fruto desse conúbio constante do
pré-lógico com o metalógico. O que está por baixo e
antes da consciência, com o que está depois e acima dela. Seu estilo
foi e continuará a ser a expressão pura de sua pessoa. Sem ter a mínima
intenção de fazer surrealismo, de criar uma nova forma ou mesmo escola
literária como fez André Breton. Clarice foi surrealista e supra-realista
sem querer.
No sentido total de uma expressão literária, que liga o que está
antes da voz e da palavra expressa, isto é, no fluxo do monólogo interior
pré-verbal, com a presença superior do deus invisível, sempre
presença na vida como na obra dessa alma trágica de mulher, que representou
tão bem em nossa vida intelectual, essa realidade perturbadora do Eterno
Feminino goetheano. Fusão absolutamente espontânea, que não
pode ser logicamente expressa, por viver em nossa sombra interior, antes mesmo de
ser eliminada pelo mistério da graça divina. Essa fusão espontânea
de luz e de treva será, porventura, o segredo dessa mulher fatídica
e do tipo profético de sua genealogia judaica.
No seu último livro, em dedicatória escrita um mês antes de
morrer e que recebi, no próprio escritório de seu último editor,
José Olympio, essa mulher atormentada terminava suas palavras de afeto, ao
seu primeiro editor, com essa sentença literal que tudo explica: “Eu
sei que Deus existe.” Sua trágica solidão teve também
um Companheiro.
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